Há muito, muito tempo, numa terra distante, vivia a Última Princesa.

Ela era muito elegante, inteligente e educada. Vivia rodeada de riquezas, mas, diferente das princesas dos contos de fadas, vestia trajes simples e gostava de sujar as mãos de terra para cuidar de seu jardim. E, como todas as outras pessoas, princesas ou não, ela amava a liberdade. 

A Princesa não estava à espera de seu Príncipe Encantado. Já o havia encontrado fazia muitos anos, e morava com ele num castelo de quatro andares, tão majestoso que ocultava todo o horizonte. Os cômodos eram decorados com a mais fina tapeçaria; os corredores iluminados por lustres banhados a ouro; e as paredes, cobertas por telas de pintores imortais.

Ainda mais belo que o castelo era o jardim, com fontes, canais e parterres que formavam magníficos mosaicos verdes quando vistos de cima. E bem no centro, rodeado por arbustos frutíferos e flores exóticas, ficava seu lugar favorito: o Palácio de Cristal.

Era uma construção graciosa, sem moradores nem hóspedes, cujo único propósito era abrigar uma vasta plantação de camélias e, com suas paredes transparentes, protegê-la das chuvas e do vento sem privá-la do calor do sol.

Aquela terra era um lugar justo, repleto de paz e prosperidade. 

Mas, mesmo com tudo aquilo, a Última Princesa não era feliz. Pois o enorme castelo, o lindo jardim, o Palácio de Cristal e as camélias não eram seu lar. Eram a sua prisão.

Ela havia sido banida de seu próprio reino. 

 

1

ERA UMA VEZ vez o mais belo de todos os reinos. Um lugar encantado, habitado por animais lendários e povos da floresta, com montanhas flutuantes, nuvens que choviam cachoeiras e rios de águas infinitas.


Essa Terra de Maravilhas era domínio do mais improvável dos governantes: um curioso rei-menino que amava os livros. Sozinho em sua grandiosa biblioteca particular, o jovem monarca encontrava aconchego e passava as tardes, deixando-se levar pelas histórias de mundos e épocas distantes. Entre uma leitura e outra, inventava suas próprias aventuras e escrevia sonetos que eram pequenas obras-primas.

Mesmo cercado por tesouros e todos os livros com que poderia sonhar, o rei-menino teve uma infância trágica. Com pouco mais de um ano de idade ele perdeu a mãe, que levou no ventre seu irmão mais novo. Aos cinco, foi abandonado pelo pai – que lhe deu um beijo na testa enquanto ainda dormia, e partiu para lutar sua última guerra.

Na manhã seguinte, o menino acordou e encontrou aos pés de sua cama a coroa do pai. Depois daquele dia, eles só se falariam através de cartas. A saudade que sentia era tão dilacerante que, em uma delas, ele implorou ao pai que lhe enviasse uma simples mecha de cabelo. O pedido nunca foi atendido.

O menino foi então coroado, e teve que deixar de ser criança, para se tornar um rei. Jogado no mundo dos adultos, obrigado a compreendê-los e governá-los, viu-se rodeado de pessoas com todos os tipos de intenções. Desde guerreiros que haviam sido companheiros de seu pai até outros como o Barão – um dos mercadores mais antigos do reino, cujos poderes rivalizavam com os seus, e que alguns diziam ter parte com o oculto.

Mas o rei-menino não se deixou levar pelas más influências. Pelo contrário: possuidor de nobres virtudes, guiado por tutores selecionados pelo pai antes de partir, o pequeno impressionava a todos com sua sabedoria e vontade de aprender.

Os anos voaram. O menino tornou-se um homem e conquistou a admiração e o carinho de seu povo. Na juventude, ele conheceu uma artista graciosa, herdeira de um reino distante. Amante das artes, ela criava os mosaicos mais magníficos de que se tinha notícia.

Os dois jovens logo se apaixonaram e, para a felicidade de todos, em pouco tempo se casaram e tiveram um lindo bebê.

Um menino forte e saudável, que, como toda criança, era uma promessa de mudança e renovação. Ao pegar seu Príncipe nos braços, o Rei chorou as lágrimas que um homem só chora uma vez na vida. Lembrou-se da ausência do pai, da infância que havia sido tomada de si, e prometeu ao filho que jamais o abandonaria.

Um ano depois, o casal real recebeu uma segunda bênção: uma linda menina, que seria a última princesa daquele reino encantado.

Uma princesa cuja história seria marcada por aventuras e grandes provações. A começar pelo duro fardo de herdar a coroa, na tarde em que o céu enegreceu anunciando a morte do irmão, com apenas dois anos de idade, para o absoluto desespero do Rei e da Rainha.

Continua em “A Última Princesa”  - Ed. Galera Record. Nas livrarias em abril.

Adicione ao Skoob!